terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Os sem-calças

Em tempos de diálogo com a nossa Universidade, com a maneira como  ela se apresenta para nós e o nosso compromisso com ela, certamente é comum que tratemos de questões cada vez mais pertinentes que se escondem nas teias subliminares, e que nos deparemos com falsos legalismos que percebemos nessas questões. Mas, venhamos e convenhamos ser de um estranhamento absurdo proibições que colocam em  evidência o conservadorismo arcaico – mesmo quando já achamos estar livres dele – , aquele inaceitável por tratar de posicionamentos radicais que problematizam questões que atualmente deveriam estar colocadas  fora de qualquer organização educacional, que há muito tempo deveriam estar aposentadas por tudo que se construiu e se tenta construir diariamente,  nos esforços de afirmar a Universidade como o espaço social que ela se propõe a ser; são questões grotescas, até pela necessidade de discussões  muito mais significativas que instigariam todos nós, parte da universidade, tratar em comunidade a realidade da academia. São comportamentos medievais, que impedem a dinâmica necessária entre os atores da Universidade em problematizarem o espaço em que compartilham do saber, saber este que, se não tomamos cuidado,  perde-se nos próprios emaranhados teóricos e fazem-se contradizer,  quase sempre,  aqueles que os defendem. São comportamentos hierárquicos, na ordem hierárquica de poder e não de respeito,  que expõem o moralismo e a carência de reflexão que inacreditavelmente sustentam discussões  e posicionamentos  ultrapassados dentro de nossa  Instituição,  que deveria estar organizando-se para seguir caminhos rumados pela reflexão e as idéias.

Foi de imensa surpresa para todos nós estudantes ( ou nem tanto assim, para alguns), o acontecimento da última semana. Na segunda, 03, o Professor Gerson, ministrante da disciplina Métodos e Técnicas de Pesquisa II, abandonou  sala de aula e disse irreversivelmente abandonar a cadeira que ministrava no curso de Psicologia. Em e-mails do conhecimento desse Centro disse ter sido desrespeitado e ferido, pela falta de alguns centímetros de pano nas pernas dos estudantes. Evidenciou seus 32 anos de profissão, em que por determinação própria proibia estudantes de assistirem suas aulas de bermuda ou trajes que julgasse impróprios para o recinto. Mas é justamente a justificativa do professor que nos faz indagar sobre sua relação enquanto educador com a Instituição e a sua colaboração na firmação dos princípios desta. Prepotência é isso: “Quantas calças não foram lavadas às pressas e secadas atrás da geladeira por conta do professor e sua severidade?” Como o professor Gerson gostaria de respeito, se não há a reciprocidade, que pode ser entendida como a condição comum para se estabelecer a veneração não como na forma da lei, da imposição? Não surpreende  o professor não respeitar a Psicologia, que pisando em ovos, tenta caminhar com as próprias pernas, sem empurrões, já que esta, diferentemente do professor,  busca sempre dialogar com as diversas maneiras que cada um tem de expor-se dentro do nosso Centro. É de se pensar em oportunismo! Normas e regras necessárias para a instauração do respeito,  devem ser discutidas, oras.  Se não passam pelo campo da discussão, como serão  respeitadas no campo da legalidade, do direito?  Tanta opressão parece esconder outras tantas pretensões e imposições que, ao que parece, jamais poderiam ser da ordem da discussão das idéias, mesmo estando nós, no espaço que estamos. O professor também deveria sentir-se desrespeitado pelas condições de trabalho que tem,  a estrutura precária da Universidade, o descaso com a própria Psicologia no Centro. Mas ele é “um estranho na Psicologia, é um peixe fora d’água”; pois bem, é preciso aprender a nadar na praia dos outros, e isso se tornaria uma tarefa fácil se os que se acham tubarões não subestimassem a força do cardume. Essa opressão toda, ainda  é resquício de um exemplo de universidade que nós estudantes combatemos há anos, é autoritarismo. E o autoritarismo é repugnante, ele cria espaços outros, estranhos e obscuros que evidenciam os interesses próprios que se escondem nas decisões às portas (e mentes) fechadas, por exemplo, distantes das discussões. Quando a lei do “manda quem pode, obedece quem tem juízo” impera, só temos a perder. Sorte que essa lei não tem vez em terras de sem-juízo e sem-calças.