Práticas
Integrativas em Psicologia II - disciplina?! - 03 de setembro de 2013
Sempre
apontam como uma grande vantagem do curso de Psicologia da UFCG, as disciplinas
de Práticas Integrativas I e II. Também concordo que a experiência que temos
nos 3º e 5º períodos nos ajudam muito a compreender um pouco do valor de nossa
profissão. Por isso, sobre as Práticas deixo meu humilde testemunho:
As
práticas integrativas nos revelam a realidade dos serviços públicos no país. Na
saúde, educação, segurança, as pessoas pedem socorro. Na atenção básica, nos
programas pedagógicos, na intransigência da lei, os profissionais pedem
socorro. O que pude perceber no nosso primeiro estágio de visitas foi, antes de
tudo, o pedido de socorro vindo de ambos os lados. O descaso do poder público
com políticas, profissionais e estrutura essenciais à sociedade é gritante, e
por isso constante na fala das pessoas. Papeladas amontoadas em tribunais,
profissionais desesperançosos e revoltados em Conselhos, mulheres abandonadas
em cadeias. Entre tudo isso, nós, de mãos atadas à Universidade, esta atada aos
interesses da produção acadêmica, por sua vez de rabo preso com a ciência. Não
se fala em compromisso social na psicologia, enquanto lá fora não só a
população como também profissionais pedem socorro.
As
práticas integrativas nos revelam os propósitos das Universidades no país. O
número de profissionais sempre é escasso e a demanda nunca atendida. Não que
seja responsável pelas mudanças sociais de que precisamos, mas talvez uma
potencial protagonista, a Academia vem entregar-se na prática ao seu verdadeiro
intuito, que hoje mostra ser o de explorar a realidade para transformá-la em
papel, arquivá-la, produzi-la e descartá-la com rapidez e indiferença, sem
deixar de lado a eficiência com que faz isso - ah, mas isso é só formação! A
falta de programas não só das universidades federais como também estaduais e
particulares com as instituições que demandam do serviço faz com que
problematizemos o valor social das extensões, seu retorno para as comunidades,
para aqueles que realmente precisam de nosso trabalho. É mais um para o
currículo.
As
práticas integrativas nos revelam que profissionais podemos ser. O “faço por
amor, por prazer, porque gosto” é ouvido constantemente de muitos
profissionais. Abrir mão de conforto, regalias, de um bel prazer remunerado.
Profissionais com quem conversamos nessas práticas valem mais que a própria
psicologia. A razão social da psicologia parece não ter sido descoberta nos
tempos atuais. Descobriram somente a razão, então meus colegas perguntam pelo
salário, se vale a pena. Se vale a pena lutar por direitos, se vale a pena
escutar uma vida quando ela morreu para o resto, para as ruas e para os
eficientes que produzem a todo instante, se vale a pena o suor. Meus colegas
perguntam se vale a pena ser psicólogo e respondo para estes que não, não vale
a pena ser psicólogo, se você não sabe do que se trata.
As
práticas integrativas nos revelam a realidade. Vidas no crime, nas favelas, na
cadeia, no equívoco, na indiferença do juiz, na espera pela chegada dos
estudantes de psicologia. As práticas integrativas nos mostram o Estado tirando
vidas e nós as enterrando com a caneta, nos nossos relatórios, que imprecisos
nos farão perder alguns décimos de ponto.
Os Sem-Calças - 10 de Novembro de 2012
Em
tempos de diálogo com a nossa Universidade, com a maneira como ela se
apresenta para nós e o nosso compromisso com ela, certamente é comum que
tratemos de questões cada vez mais pertinentes que se escondem nas teias
subliminares, e que nos deparemos com falsos legalismos que percebemos nessas
questões. Mas, venhamos e convenhamos ser de um estranhamento absurdo
proibições que colocam em evidência o conservadorismo arcaico – mesmo
quando já achamos estar livres dele – , aquele inaceitável por tratar de posicionamentos
radicais que problematizam questões que atualmente deveriam estar
colocadas fora de qualquer organização educacional, que há muito tempo
deveriam estar aposentadas por tudo que se construiu e se tenta construir
diariamente, nos esforços de afirmar a Universidade como o espaço social
que ela se propõe a ser; são questões grotescas, até pela necessidade de
discussões muito mais significativas que instigariam todos nós, parte da
universidade, tratar em comunidade a realidade da academia. São comportamentos
medievais, que impedem a dinâmica necessária entre os atores da Universidade em
problematizarem o espaço em que compartilham do saber, saber este que, se não
tomamos cuidado, perde-se nos próprios emaranhados teóricos e fazem-se contradizer,
quase sempre, aqueles que os defendem. São comportamentos hierárquicos,
na ordem hierárquica de poder e não de respeito, que expõem o moralismo e
a carência de reflexão que inacreditavelmente sustentam discussões e
posicionamentos ultrapassados dentro de nossa Instituição,
que deveria estar organizando-se para seguir caminhos rumados pela
reflexão e as idéias.
Foi
de imensa surpresa para todos nós estudantes ( ou nem tanto assim, para
alguns), o acontecimento da última semana. Na segunda, 03, o Professor Gerson,
ministrante da disciplina Métodos e Técnicas de Pesquisa II, abandonou
sala de aula e disse irreversivelmente abandonar a cadeira que ministrava
no curso de Psicologia. Em e-mails do conhecimento desse Centro disse ter sido
desrespeitado e ferido, pela falta de alguns centímetros de pano nas pernas dos
estudantes. Evidenciou seus 32 anos de profissão, em que por determinação
própria proibia estudantes de assistirem suas aulas de bermuda ou trajes que
julgasse impróprios para o recinto. Mas é justamente a justificativa do
professor que nos faz indagar sobre sua relação enquanto educador com a
Instituição e a sua colaboração na firmação dos princípios desta. Prepotência é
isso: “Quantas calças não foram lavadas às pressas e secadas atrás da
geladeira por conta do professor e sua severidade?” Como o professor Gerson gostaria de
respeito, se não há a reciprocidade, que pode ser entendida como a condição
comum para se estabelecer a veneração não como na forma da lei, da imposição?
Surpreende o professor não respeitar a Psicologia, que pisando em ovos,
tenta caminhar com as próprias pernas, sem empurrões, já que esta,
diferentemente do professor, busca sempre dialogar com as diversas
maneiras que cada um tem de expor-se dentro do nosso Centro. É de se pensar em
oportunismo! Normas e regras necessárias para a instauração do respeito,
devem ser discutidas, oras. Se não passam pelo campo da discussão,
como serão respeitadas no campo da legalidade, do direito? Tanta
opressão parece esconder outras tantas pretensões e imposições que, ao que
parece, jamais poderiam ser da ordem da discussão das idéias, mesmo estando
nós, no espaço que estamos. O professor também deveria sentir-se desrespeitado
pelas condições de trabalho que tem, a estrutura precária da
Universidade, o descaso com a própria Psicologia no Centro. Mas ele é “um
estranho na Psicologia, é um peixe fora d’água”; pois bem, é preciso aprender a
nadar na praia dos outros, e isso se tornaria uma tarefa fácil se os que se
acham tubarões não subestimassem a força do cardume. Essa opressão toda,
ainda é resquício de um exemplo de universidade que nós estudantes
combatemos há anos, é autoritarismo. E o autoritarismo é repugnante, ele cria
espaços outros, estranhos e obscuros que evidenciam os interesses próprios que
se escondem nas decisões às portas (e mentes) fechadas, por exemplo, distantes
das discussões. Quando a lei do “manda quem pode, obedece quem tem juízo”
impera, só temos a perder. Sorte que essa lei não tem vez em terras de sem-juízo e sem-calças.
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